quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A França e o seu sistema médico

Minha vontade de continuar escrevendo no blog decai conforme o tempo vai passando e eu continuo não escrevendo... Algo parecido com a "teoria da vagabundagem", que realmente acontece na pratica: quanto mais ocupado você é, mais coisas você faz...e ao contrario, se você tem muito tempo livre, você acaba não fazendo nada! Aqui é a mesma coisa, por inércia, quanto menos eu escrevo, menos eu tenho paciência pra escrever algo novo.

Enfim. Ja que eu estou doente nesses ultimos dias e não acho nada de util a fazer a não ser ficar deitado o dia inteiro - e isso cansa, ainda mais quando você passa 80% dos seus ultimos três dias nesse estado - deu uma vontade de escrever sobre esse assunto. Não, não exatamente a minha doença, mas de como funciona o sistema médico francês (pelo menos para um estudante estrangeiro como eu).

Logo que você chega na França, você é obrigado a pagar a taxa de "sécurité sociale", que vai cobrir em média 60% das suas despesas médicas casuais. Isso vale por um ano e custa em torno de 200 euros.
Você pode, na situação de estudante, aderir a um complemento para ser reembolsado em até 100%. Isso se chama "mutuelle", e ha diferentes tipos de planos, que ficam mais caros à medida em que reembolsam médicos mais especializados.

Até ai tudo bem, você pagou as taxas, esta feliz que vai ser coberto durante o ano todo e espera contar com o plano médico sempre que precisar. Porém, logo apos a primeira consulta médica, você se da conta que isso pode dar bem mais dor de cabeça do que você imaginava...

Aqui, tudo funciona na base do reembolso: você paga primeiro e espera o reembolso dos serviços de saude que você pagou la no começo do ano. O problema é que esse reembolso costuma demorar. E muito. Ou pode até mesmo não acontecer. Como você é instruido a enviar por correio a "feuille de soins" (um atestado comprovando que você pagou pelos serviços médicos) e a mutuelle não é um ambiente nada organizado, logo se vê que essa alternativa pode encontrar muitos erros, e reembolsos de dois ou três meses são normais - isso se acontecerem!

Deve ser dificil para as mutuelles tratarem os casos de alguns milhões de estudantes apenas no papel, então uma ferramenta bem conveniente foi criada: a "Carte Vitale", um cartão que representa um serviço eletrônica permitindo saber quais foram os seus gastos médicos rapidamente. Ela funciona muito bem; o problema é ter posse da bendita. O pessoal da mutuelle fala que "o mais rapidamente possivel" você tera a sua, mas não acredite neles - seis meses é um periodo de tempo bem razoavel pra receber a sua carte vitale. Isso que tem gente que esta aqui ha mais de um ano e não a tem ainda!

Mais uma diferença bem grande em relação ao sistema brasileiro, é que aqui tudo tem que passar pelo seu médico particular antes. Ou seja, se você tem um problema especifico, de pele, nas costas, onde for, mesmo que você saiba disso, você tem que ir ao seu médico antes pra ele te recomendar um médico especialista. Eh uma consulta totalmente desnecessaria, ainda mais se você ja teve este tipo de problema antes.

Cito então o meu problema, que surgiu durante o meu estado febril: a cor da minha urina esta muito mais escura do que o normal; não é a primeira vez que isso me acontece, ja tive uma infecção nos rins. No Brasil, bastaria procurar um pronto-socorro perto de casa e eles me encaminhariam para realizar os procedimentos necessarios no local. Aqui, tenho que ir na médica generalista - que atende um milhão de pacientes a mais que eu, e não tem como dar uma atenção diferenciada a cada um deles - que me receita um exame de urina, depois preciso ir ao laboratorio, e agora estou esperando que pelos resultados desse exame a médica me ligue para me dar alguma informação, ou senão terei que visita-la de novo para saber o que devo fazer.

Realmente, o serviço (privado) de saude brasileiro me faz falta. Mas me questiono se os pais de familia passam por esse mesmo procedimento que um estudante estrangeiro sozinho tem de passar, ou possuem um pronto-socorro particular. Viver sozinho não é tão legal, apesar de tudo...

Finalizo com um pensamento bem pessoal: sinto uma certa pena que, enquanto meus bisavôs e bisavos viveram bastante tempo (levando em conta que a raça japonesa exibe uma certa longevidade, e que minha ultima bisavo viva esta com quase 100 anos), se eu me sair dessa (que positivismo!) e, caso eu morra de problemas de saude, com certeza viverei uns trinta anos a menos que eles devido à uma complicação nos rins. Ah, c'est la vie! Acho que vou virar um daqueles poetas românticos (manjam, Augusto dos Anjos e parecidos?) que soh escreviam pensamentos pessimistas, depois dessa.
Ou talvez seja a minha situação de doente que me faz pensar nisso, vai saber...

Um comentário:

Tiago Goto Sala disse...

O pior de tudo é esperar dias, até meses, para a consulta com o especialista. Nesse meio tempo, o problema vai piorando... realmente, motivos não faltam para seu pessimismo, mas Augusto dos Anjos já é demais: "Acordou, vendo sangue... Horrível! O osso/
Frontal em fogo... Ia talvez morrer,/
Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,/
Ah! Certamente não podia ser!"

O jeito é confiar no seu sistema imunológico, porque quando o remédio chegar (isso se você não se automedicar antes...) seu rim estará estourado.

Melhoras.
Atenciosamente,
Seu Primo.